Dizem que, em certa capital cercada de concreto, poeira e solenidades, surgiu um governante conhecido pela habilidade de abrir cofres sem jamais tocar neles. Não usava lâmpada mágica nem tapete voador. Usava algo mais eficiente: base aliada e maioria em plenário.
O líder era chamado, nos corredores, de Ali Baneis. Assim como na velha história, ele nunca agia sozinho. À sua volta, circulava um grupo fiel de deputados distritais, sempre atentos ao momento exato de votar, aprovar e justificar.
— Abre-te, orçamento.
E o mercado se abria.
Projetos atravessavam sessões com velocidade incomum. Operações complexas eram tratadas como rotina administrativa. Tudo dentro da legalidade, diziam. Tudo técnico, garantiam. Para quem assistia de longe, parecia apenas política funcionando. Para quem acompanhava de perto, era previsibilidade demais para ser coincidência.
Os quarenta deputados — número simbólico, claro — não precisavam explicar muito. Bastava registrar o voto, repetir o discurso combinado e seguir adiante. O que vinha depois ficava para os relatórios, para os órgãos de controle, para um futuro sempre adiado.
Quando o barulho começou, ninguém se disse responsável. Houve quem alegasse desconhecimento, quem falasse em confiança institucional e quem jurasse que só cumpriu seu papel. As versões se multiplicaram, mas os votos permaneceram os mesmos.
E então veio o escândalo.
Não como surpresa, mas como consequência.
Ainda assim, nada parou.
As cadeiras continuaram ocupadas.
As sessões continuaram ocorrendo.
Os mesmos discursos seguiram sendo repetidos, agora com mais cautela e menos entusiasmo.
Ali Baneis não caiu.
Os deputados não recuaram.
Porque, no fim das contas, a história não era sobre roubo explícito ou caverna secreta. Era sobre decisão política, tomada à vista de todos, registrada em ata e protegida pela normalidade.
A sátira ajuda a entender, mas não exagera.
Aqui, ninguém grita “abre-te, sésamo”.
Aqui, vota-se.
E quando tudo termina — CPI, manchete, indignação, o mercado fecha só até a próxima sessão. Porque o verdadeiro segredo nunca foi a senha. Foi a certeza de que, aconteça o que acontecer, ninguém solta a chave.
✍️ Douglas Protázio
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