Leminski nasceu em Curitiba, em 1944. Enquanto o Brasil começava a se apaixonar pela Bossa Nova, com João Gilberto ensinando o país a cantar baixo e suave, ele era um menino de doze anos enfiado num mosteiro beneditino. Do lado de fora, violão, promessa de futuro, modernidade. Do lado de dentro, paredes grossas, latim, grego, silêncio e disciplina. Essa dualidade importa. Ela explica muito. Leminski foi formado entre dois mundos que raramente conversam. O mundo da contemplação e o mundo da rua. O rigor quase medieval do mosteiro e o improviso caótico de um país que nunca coube em moldura. O mosteiro não o transformou em santo. Transformou em leitor. Em alguém que entendeu cedo que palavra tem peso, estrutura e consequência.
Depois veio o corpo. O judô. A faixa preta. E isso não é detalhe decorativo de biografia. O judô ensinou precisão. Um golpe mal dado não funciona. Um verso frouxo também não. Foi daí que Leminski se aproximou do haikai. E aqui vale mastigar com calma. Haikai é uma forma poética japonesa curtíssima, tradicionalmente composta por três versos, que tenta capturar um instante com o mínimo de palavras possível. Não é poema curto por preguiça. É poema curto por concentração máxima. Um relâmpago verbal. Leminski trouxe isso para o português misturando filosofia oriental com o caos brasileiro, o barulho urbano, a ironia, a vida comum. O haikai, na mão dele, virou um jeito de olhar rápido e fundo ao mesmo tempo.
Nos anos 1970, a casa dele com Alice Ruiz virou mais do que um endereço. A chamada República do Cabral era um organismo vivo. Poetas, músicos, gente quebrada e genial entrando e saindo, discutindo versos, política, vida, madrugada adentro. Era criação coletiva antes de existir internet. Um Brasil que criava no contato direto, no atrito, no improviso, sem algoritmo dizendo quem merecia ser visto.
Leminski nunca acreditou nessa ideia de poesia como coisa sagrada demais para tocar. Trabalhou em publicidade sem culpa. Aprendeu com o outdoor. Com a frase curta. Com o impacto imediato. Décadas antes de qualquer rede social, ele já escrevia como quem sabia que o leitor pisca rápido. A linguagem precisava disputar espaço com o mundo real, barulhento, disperso.
Catatau talvez seja o ponto mais radical dessa cabeça. René Descartes perdido nos trópicos, derretendo sob o sol brasileiro, alucinando, tropeçando na própria razão. Um livro difícil, propositalmente difícil. Leminski não escrevia para facilitar. Escrevia para provocar curto-circuito. Acreditava que o leitor também precisava suar, se perder um pouco, sair diferente do que entrou.
Ao mesmo tempo, ele estava nas músicas. Nas vitrolas. Letras gravadas por Caetano Veloso, Novos Baianos, Itamar Assumpção. “Verdura” é um paradoxo nacional. Um país sob ditadura, mas ainda capaz de cantar algo solar. Leminski sabia que poesia também é som, corpo, circulação. Não precisava ficar presa à página.
A imagem ficou. O bigode. O cabelo desalinhado. O copo sobre a mesa. Um livro de Bashô por perto. O malandro-erudito. O intelectual que não afasta, que aproxima. O tipo de gênio que você imagina encontrando encostado num balcão, não trancado numa torre.
Escrever cobra. Não é metáfora bonita. Cobra mesmo. Cobra atenção, energia, curiosidade, presença. Cobra a cabeça funcionando quando ela só quer desligar. Tem dias em que nada vem. Nenhuma frase. Nenhuma imagem. Nenhuma musa. Só um cansaço denso, desses que não passam com descanso. E aí eu fico olhando para a página como quem encara um espelho que não devolve reflexo.
E aqui eu preciso ser honesto com você que lê. Eu poderia estar bebendo por amores que se foram, por pessoas que perdi, por saudade, por raiva, por algum vazio antigo. Poderia estar bebendo para anestesiar uma dor que não coube em palavra. Mas, muitas vezes, não é isso. Eu bebo tentando abrir uma fresta na cabeça. Tentando bagunçar o pensamento para ver se algo se rearranja. Para ver se surge uma frase menos óbvia. Um texto mais vivo.
Todo mundo sabe que bebida é veneno. Em excesso, nem se discute. Mas existe esse pacto silencioso. A ideia de que um copo pode ajudar a pensar fora da caixa. Que uma leve embriaguez pode embaralhar as ideias do jeito certo. Existe esse mito antigo do escritor meio bêbado, meio perdido, vida quebrada, enquanto os leitores encontram beleza no que ele escreve. Leminski viveu isso até o limite. E eu entendo. No curto prazo, o álcool parece conversar com os anjos.
Mas a longo prazo ele muda o tom da conversa. Os anjos vão embora sem avisar. E quem fica são os demônios. Não os caricatos, mas os meticulosos. Os que cobram cada palavra escrita sob esse acordo. Cada frase produzida naquele estado. É como um pacto que a gente não fez conscientemente, mas que mesmo assim passa a existir. Um contrato sem assinatura, sem testemunha, mas com juros. E eles sempre vencem depois.
Leminski morreu em 1989, aos 44 anos, vítima de cirrose hepática. Jovem demais. Cedo demais. E mesmo assim, décadas depois, voltou com força. Em 2013, Toda Poesia fez o Brasil parar. Gente nova descobriu que poesia podia ser viva, afiada, contemporânea. Que poema não precisava pedir licença.
Leminski não é passado. É aviso. Um lembrete de que a língua portuguesa pode ser brinquedo e lâmina. E de que toda chama muito alta corre o risco de queimar o próprio pavio.
copo vazio
na mesa, o verso tenta
não repetir você
desculpa, Leminski
tentei beber o caminho
e errei o golpe
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via Fagner Oliveira
#LiteraturaClandestina