quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dedicado aos jogadores do Coritiba FC

A Dona Evani da Karin


Dona Evani, aquela sra. que estava desaparecida - só que não - http://hashtag.blogfolha.uol.com.br/2013/10/15/dona-evani-so-quer-que-mais-maes-tristes-facam-como-ela/
Já apareceu em outra ocasião. 
Nesse belo conto de Karin Fernandes de Araújo, datado de 2008.
Vale a Leitura, sim com L maiúsculo.

26/09/2008
E ASSIM FOI...
Deu uma de louca. Pegou tudo que podia e enfiou dentro do carro. Foi a TV, a batedeira que ganhara da mãe, o lençol que a tia dera, os livros, os CD’s, a vitrola caindo aos pedaços que herdara da avó, tentou colocar seus vasinhos singelos de porcelana, mas teve tanto medo deles quebrarem que achou melhor deixá-los. Encheu uma mala dessas grandes de viagem com suas roupas prediletas, se perguntou por um instante para quê tanta roupa, só tinha um corpo para vestir. Alojou delicadamente tudo dentro do fusca branco que comprara no final da década de 80 e que não tivera tempo nem dinheiro para trocar.
Tentou pensar nos dois filhos ainda adolescentes que com certeza acharíam que a mãe havia ficado louca ou no mínimo a odiaríam por longos anos. O garoto de 16 anos estava mais preocupado com suas revistas de mulheres nuas ultimamente, ia bem na escola e tinha muitos amigos, nada necessariamente que fizesse a mãe se preocupar. A menina, uma garota de 13 anos, não saía da casa da madrinha e sonhava continuar seus estudos no segundo grau, nos Estados Unidos, pagos, claro, pela madrinha rica e solteira que fazia todos os gostos da menina. Mas sinceramente, ela não conseguia pensar em nada disso.
Lembrou por uns instantes nos anos que passara naquela vida, no cuidado com a casa, no amor ao marido, aos filhos, a alegria tímida e a angústia velada, de tantos anos sem pensar se era isso mesmo que queria para si. Lembrou que se esqueceu de pensar, enquanto corria com as crianças ao médico, enquanto almoçava aos domingos na sogra e conversava com suas cunhadas sobre a nova moda para sapatos que acabava com as colunas das mulheres, e ainda observava seu marido e seus irmãos babando sobre 23 homens e uma bola.
Sentiu naquele momento o calor do sol e percebeu que queria mudar, ser livre, recomeçar com outro nome, outra vista, poder pensar sobre o que queria e não se deixar levar, assim, como quem não tem controle sobre sua própria vida. Não que essa a tivesse machucado tanto, gostava da sua família, dos seus lazeres, dos amigos, mas mesmo assim, largava a vida para atrás sem remorso algum, queria sentir, mas não sentia. Sabia que era loucura, mas o que é essa vida se não loucura?
Entrou no fusca sozinha, ficou parada alguns minutos ainda dentro dele com um sentimento confuso, mas sem pensar em nada. Virou a chave, andou até o primeiro posto e encheu o tanque. Dirigiu por 6 horas seguidas, sem destino. Parou no meio da estrada que a levava ao interior do Estado, estacionou o carro, pegou uma jaketa, uma barra de cereais e uma garrafa de água. Saiu andando pela estrada.



Eita Curitiba! Lá a cana é doce