Of Law.
Não trabalho para nenhum veículo de imprensa brasileiro. Se trabalhasse e cobrisse política, gostaria de fazer certas perguntas a Flávio Bolsonaro, senador, pré-candidato à presidência e filho do ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado. São perguntas baseadas em inquéritos do Ministério Público, relatórios da Polícia Federal e registros públicos. O senador segue sem respondê-las, porque a imprensa tradicional brasileira simplesmente não as formula. Essa permissividade impede que um candidato à presidência seja escrutinado da forma como deveria. Eis as questões que Flávio Bolsonaro deveria responder e esclarecer aos cidadãos brasileiros, se deseja presidir o país:
1. Documentos da Procuradoria-Geral da República indicam que seu pai estava ciente e concordou com um plano para assassinar o presidente Lula, o vice-presidente Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. O senhor, como herdeiro político direto e pré-candidato pelo mesmo partido, tinha conhecimento dessa articulação? Se tinha, por que não alertou as autoridades? Se não tinha, como explica o fato de que pessoas em seu círculo imediato estavam envolvidas sem que o senhor percebesse?
2. Quando a Polícia Federal revelou o plano de assassinato, o senhor publicou nas redes sociais que “pensar em matar alguém não é crime”. O senhor pode esclarecer o que pretendia comunicar com essa declaração? E pode afirmar, sem ambiguidade, que condena qualquer plano de violência política contra autoridades eleitas ou nomeadas?
3. O senhor acredita que as eleições de 2022 foram fraudadas? Caso não acredite, por que nunca disse isso publicamente de forma clara? E caso seja derrotado em 2026, compromete-se a reconhecer o resultado pelas vias institucionais?
4. O senhor concedeu a Adriano da Nóbrega, posteriormente identificado como chefe do grupo de matadores de aluguel conhecido como Escritório do Crime, duas medalhas Tiradentes, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio. Ao mesmo tempo, investigações do Ministério Público indicam que a mãe e a esposa de Nóbrega recebiam salários de cargos comissionados em seu gabinete sem comparecer ao trabalho, e que parte desses valores era repassada ao próprio miliciano. Quem indicou essas contratações? O que o senhor sabia sobre as atividades criminosas de Nóbrega à época?
5. Registros apreendidos pela Polícia Civil no celular de Márcia Oliveira de Aguiar, mulher de Fabrício Queiroz, mostram que o advogado do senhor e a própria Márcia viajaram até Adriano da Nóbrega , então foragido da Justiça, dois meses antes de ele ser morto em operação policial na Bahia. O Ministério Público descreveu o encontro como de “natureza clandestina” e de “provável caráter ilícito”. O senhor pode explicar a que propósito servia essa visita e o que sabia sobre ela?
6. O Ministério Público do Rio de Janeiro concluiu que recursos desviados de seu gabinete na Assembleia Legislativa financiaram a construção de imóveis irregulares pela milícia em Rio das Pedras e Muzema, e que o senhor figuraria como um dos beneficiários dos lucros. O que o senhor financiava a milícia para obter lucro?
7. Relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontaram que sua franquia da loja de chocolates Kopenhagen apresentava movimentação em dinheiro vivo incompatível com o faturamento típico do setor. Investigadores concluíram que a loja pode ter sido usada para converter recursos de origem ilícita em patrimônio aparentemente legítimo. O senhor pode documentar a origem de cada depósito em espécie registrado nessa operação? Por que sua franquia era a que mais recebia dinheiro em espécie no país?
8. Em 2018, o senhor declarou patrimônio de R$ 1,74 milhão. Três anos depois, adquiriu um imóvel avaliado em R$ 6 milhões, financiado pelo BRB com prestações que comprometiam cerca de 50% da renda declarada do casal, acima do limite prudencial de 30% adotado pelo sistema financeiro. Como o senhor explica essa evolução patrimonial? E por que o banco concedeu condições que normalmente não seriam aprovadas?
9. Ao solicitar o financiamento ao BRB, o senhor declarou que metade de sua renda provinha da franquia Kopenhagen. Posteriormente, em sede judicial, alegou que parte relevante de seus recursos vinha do exercício da advocacia. No entanto, não há registros de processos em seu nome nas seccionais da OAB onde mantém inscrição, e nenhuma renda advocatícia constava das informações fornecidas ao banco. Qual das duas versões corresponde à realidade?
10. A quitação antecipada do financiamento da mansão incluiu seis aportes extraordinários, um deles superior a R$ 997 mil, realizados nos meses seguintes à anulação de provas do caso das rachadinhas pelo Supremo Tribunal Federal. O senhor pode apresentar documentação que comprove, de forma rastreável, a origem de cada um desses aportes?
11. Em sete anos de mandato no Senado, o senhor teve apenas um projeto de lei aprovado. Nesse mesmo período, acumulou investigações por lavagem de dinheiro, vínculos documentados com organizações criminosas, incompatibilidade patrimonial e silêncio diante de uma tentativa de ruptura institucional articulada por seu próprio grupo político. Com base em que histórico de realizações e em que padrão de conduta o senhor se considera digno de se apresentar ao eleitorado brasileiro como candidato à presidência da República?
Gostaria que Flávio pudesse responder estas perguntas, ao vivo e, preferencialmente, sem desmaiar.
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